(NB- Os apontamentos que se seguem baseiam-se em textos
de diversas procedências, alguns “plagiados” da Internet)
1- OS MANUSCRITOS
No verão de 1947, um mero acaso levou à descoberta dos textos bíblicos, em hebraico, mais antigos que se conhecem, escondidos em cavernas na zona de QUMRAM, na costa norte do Mar Morto, na Palestina.
Entre os muitos documentos, escritos em pergaminho e papiro, que uns pastores beduínos descobriram nessas cavernas, encerrados em vasos de barro, encontrava-se um rolo de sete metros de pergaminho com o primitivo texto hebraico integral do “Livro de Isaías”.

“Livro” de Isaías e
o vaso que o conteve
durante 2000 anos
(Museu do Livro - Jerusalém)
(Teria este mesmo rolo de pergaminho sido manuseado por Jesus Cristo ?)
O exame do documento por peritos revelou que estes textos de Isaías foram, sem dúvida alguma, escritos pelo ano 100 a.C.! É o original de um dos livros como os que Jesus manuseava quando lia, aos sábados, em Nazaré (vd. Lucas 4.16 e seguintes).
Este exemplar do Livro de Isaías, com mais de dois mil anos de idade, é uma grande prova da autenticidade da tradição da Sagrada Escritura, pois o seu texto concorda perfeitamente com a redacção actual, fruto de longa transmissão oral.
Posteriormente, entre 1949 e 1951, os arqueólogos G. Lankester Harding e Padre Roland de Vaux conseguiram encontrar noutras cavernas do Mar Morto grande quantidade de manuscritos muito mais antigos. Entre eles acham-se, em trinta e oito rolos, dezanove livros do Velho Testamento. Esses achados são, segundo declarou G. L. Harding, "o acontecimento arqueológico mais sensacional do nosso tempo. Uma geração inteira de especialistas em assuntos bíblicos terá que empenhar-se no exame desses textos".
Exames paleográficos confirmaram o que acima se disse: o Livro de Isaías era do ano 100 a.C. Imagine-se o nervosismo, corria então Março de 1948, pois o mais antigo texto que existia era da Idade Média.
De facto, a destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, não poupou documentos.
A mais velha Bíblia judaica, encontrada em Alepo, na Síria, era do século X da nossa era! O mais remoto documento judeu existente era uma Mishná, o código dos rabinos, do ano 200.
Os manuscritos, portanto, eram provas materiais de uma história passada 2000 anos antes. Logo que a notícia se espalhou, beduínos e arqueólogos vasculharam as 267 cavernas na região de Qumran.
O padre Roland de Vaux, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, escavando ruínas então desconhecidas, descobriu mesmo o convento dos essénios. No total, cerca de 900 manuscritos, escritos em hebraico, aramaico e grego, foram achados em mais dez cavernas, numeradas, então, de 1 a 11. A caverna 4 enlouqueceu os paleógrafos: continha 575 dos 900 manuscritos, mas em 15 000 pedaços, alguns do tamanho de uma unha. Para o seu estudo e respectiva tradução, um quebra-cabeças infernal se apresentava, dada o seu mau estado, até com falta de fracções.
Noutros sítios arqueológicos associados a Qumran, como a fortaleza judaica de Massada, no sul do Mar Morto, também foram descobertos pergaminhos. Muitos rolos estavam em bom estado, mas, a maioria, não resistiu aos séculos e despedaçou-se.
“Os manuscritos são a maior descoberta arqueológica do século”, confirmou, também, o padre católico e filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, um dos tradutores. “Basta considerar a sua idade, diversidade e conteúdo.” Outro tradutor, o teólogo Eugene Ulrich, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, especifica, no mesmo sentido: “É a mais importante descoberta da história religiosa do Ocidente.”
Este arquivo dos essénios revelou pergaminhos de 225 a.C. até 65 d.C., contemporâneos, portanto, de Jesus Cristo (que morreu, como se julga, no ano 33). Possuía originais de 22 dos 23 Livros do Antigo Testamento (a exceção é o Livro de Ester) e vasta literatura não bíblica. Destaque-se a mais antiga palavra registada do Deus judaico-cristão: um fragmento do Livro de Samuel, do ano 225 a.C., achado na caverna 4.
Graças a esta descoberta, as cópias do Antigo Testamento feitas por gregos, latinos, sírios, etíopes e bizantinos, durante séculos, poderam ser conferidas, confirmando, assim, a história do judaísmo e as raízes do cristianismo.
Esta autêntica novela científico-policial da tradução nasceu, assim, em 1951, quando o governo da Jordânia — que controlava a margem ocidental do Rio Jordão, onde está Qumran e a parte oriental de Jerusalém, ambas anexadas por Israel em 1967 — criou uma primeira equipe de tradutores.
Foram escolhidos sete eruditos, a maioria padres católicos, filólogos da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa. Por motivos políticos, pesquisadores judeus foram excluídos. Os sete, simplesmente dividiram 500 textos entre si - uma tarefa colossal, encetada com um excesso de autoconfiança e vaidade intelectual - numa empreitada que, afinal, ameaçava questionar o cristianismo.
Resultado: somente um dos tradutores, o inglês John Allegro, conseguiu publicar o que lhe competia. Mas seu trabalho foi considerado tão mau, que implicou correcções que pouco aproveitaram do original.
De 1960 a 1990 — trinta longos anos — esta desastrada equipe apenas conseguiu tratar 100 desses 500 textos, impedindo o acesso dos outros pesquisadores, cujas solicitações para examinar os pergaminhos foram recusadas. E, quando os membros da equipe faleceram, os seus textos foram transmitidos apenas a gente de confiança.
Estas três décadas de sigilo foram alimentando suspeitas de teorias conspiratórias. Muitos acreditavam que o Vaticano, por meio da influência sobre os padres tradutores, estaria impedindo revelações dos pergaminhos que poderiam abalar a religião cristã. “Inventou-se um complot — diz o padre Puech — digno de um romance policial.” Em 1977, o professor Geza Vermes, de Oxford, chegou a chamar a tradução oficial de “o maior escândalo académico do século XX”.
De registar ainda que, em 1985, a Biblical Archaeology Review, dos Estados Unidos, iniciou uma campanha pela “libertação dos manuscritos”, a que se seguiu uma abertura muito gradual. Primeiro, o governo de Israel, que assumira o controle dos documentos desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, decidiu em 1991 criar uma nova comissão de especialistas, formada por Emanuel Tov, da Universidade Hebraica de Jerusalém, Eugene Ulrich e Emile Puech. Finalmente, em novembro do mesmo ano, a Biblioteca Huntington, da Califórnia, acabou com as especulações, tornando públicas fotocópias de todos os fragmentos. Com isso, a exclusividade sobre o material guardado em Jerusalém perdeu o sentido. Venceu a transparência.
“Os manuscritos não mudaram a minha visão de cristão”, diz Puech. “Revelaram o ambiente judeu, as crenças e práticas da época. Neles, os textos evangélicos encontram um fundo histórico, um país, um território.”

Museu do Livro
(Jerusalém)
Actualmente, os Manuscritos do Mar Morto encontram-se no Museu do Livro em Jerusalém , onde podem ser observados pelos visitantes ( eu próprio tive esse privilégio, há uns anos já ).
2 - SENSACIONAL POLÉMICA À VOLTA DO ESTUDO DO FRAGMENTO 7Q5
A importância histórica dum pequeno fragmento de papiro
1 - Descrição do fragmento 7Q5 (ver figura a seguir)
A gravura seguinte, representando o fragmento 7Q5, permite-nos avaliar os profundos conhecimentos, a minúcia, a paciência e a argúcia dos investigadores dos documentos, em conseguirem decifrar insignificantes fragmentos dos documentos encontrados em pior estado.
Trata-se dum minúsculo fragmento de papiro de cor acastanhada, em forma de coração, escrito com tinta preta numa das faces; com apenas 39 mm de comprimento e 27 mm de largura máxima, com 17 mm na parte inferior.
Apresenta umas vinte letras do alfabeto grego, das quais apenas onze são perfeitas, indiscutíveis, em cinco linhas. A primeira linha tem uma única letra, a segunda linha tem quatro ou cinco, a terceira seis e a quarta e quinta têm quatro letras.
2 - Sobressalto do mundo religioso
Como dissemos, o aparecimento dos “Manuscritos do Mar Morto”, em 1957, sobressaltou o mundo religioso dado o receio de que revelassem discrepâncias ou mesmo contradições graves relativamente aos textos oficialmente em vigor. Receio esse que, como vimos anteriormente, não se veio a justificar pois, antes pelo contrário, tais documentos vieram a confirmar os textos em uso – muitos deles fruto de transmissão oral de séculos!
Estes medos de divergências graves, porém, apenas se punham relativamente ao Antigo Testamento, dado que os especialistas bíblicos julgavam – e ainda há quem julgue - que, na data do encerramento das grutas, aí pelos anos +68 a +70, não haveria ainda documentos escritos do NT ; nem mesmo que, se houvesse, pudessem ter sido considerados importantes pelos judeus essénios de Qumran que promoveram o esconderijo nas grutas.
3 – Decifração do fragmento 7Q5
Acontece, porém, que, entre os documentos se descobriu, na gruta nº 7, um pequeno e deteriorado fragmento de papiro - acima descrito e representado - classificado como 7Q5 ( 5º documento da gruta 7), que aí esteve dormindo mais de 1900 anos. Os especialistas bíblicos do Pontifício Instituto Bíblico bem como doutros centros de investigação destes temas, bem tentaram localizar o texto a que pertenceriam as letras gregas que o documento exibia, sem de todo o conseguirem - até porque se pensava exclusivamente em termos de Antigo Testamento.
Coube ao investigador espanhol P.Callagham, depois de porfiados estudos, o mérito de conseguir identificar tal texto: para espanto geral, demonstrou tratar-se de texto do Evangelho de S. Marcos (Mc 6, 52-53) !!!
De facto, na gravura inferior completa-se o texto grego em que se inseria esse pequeno fragmento de papiro, incluindo as letras que nele figuram bem legíveis!!!
4 – Consequências
Até aqui todos os grandes especialistas bíblicos consideravam como absolutamente indiscutível que o Evangelho de S. Marcos foi transmitido oralmente durante umas décadas com a passagem a escrito só lá para os anos +70 a +90 ou mesmo depois , sendo que, realmente, o mais antigo papiro conhecido de Mc datava do século III !
Ora, estudos científicos parece datarem o 7Q5 dos anos +50 : isto é, o Evangelho de S. Marcos teria sido escrito poucos anos após a morte de Jesus; portanto, um documento fidedigno, dado que ainda estariam vivos muitas das testemunhas presenciais das pregações de Jesus Cristo.
Além disto, há quem defenda que a primeira versão de Mc seria até em aramaico, de antes do ano +45, e só posteriormente teria sido passada para grego, aí pelos anos +50 – precisamente o texto que figura no papiro 7Q5.
Há até quem julgue que o texto tenha sido da autoria do próprio S. Pedro, embora tenha sido atribuído ao seu “secretário” e intérprete S. Marcos.
Em resumo, a aceitar-se como correcta a interpretação do P. Callaghan, haverá que concluir:
- estamos em presença do mais antigo texto do Novo Testamento,
- com data anterior a +68, provável tradução do texto original dos anos +50 da autoria do próprio S.Pedro,
- portanto apenas uns 20 anos após a morte de Jesus,
- escrito quando ainda se encontravam vivas numerosas testemunhas das Suas pregações,
- necessariamente, por isso, um relato fiel dos acontecimentos.
Estaríamos, sobretudo, perante uma espantosa confirmação da historicidade dos Evangelhos.


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